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Anão vestido de palhaço mata 8 - A Saga de Josef
por Marcos Barbará


Parte 1

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Quando a frota de Marceu Marceau liberou seu primeiro torpedo na direção do Encouraçado Olof Mancuso, o único som que se ouvia era o alarme incessante e o som do radar anunciando a chegada do anjo da morte. Mais que conformada, a tripulação estava orgulhosa de sucumbir ao lado do Capitão Josef, o Anão. O cantar da sirene provavelmente seria o último som que os homens a bordo ouviriam antes de encontrarem-se com seus antepassados, mas Josef não desistiria tão fácil. Para um olho destreinado, o Anão estava apenas tentando lamber seu cotovelo, quando na verdade, ele acabara de ter uma idéia que salvaria a vida de todos, aniquilaria o inimigo, e tornaria ultrapassado o Grande Livro de Receitas da Vovó Esmeralda. Enquanto o suor fúnebre já emanava de toda a tripulação, Josef recordou que o Encouraçado carregava 412 toneladas de inhame, trocadas por um guaxinim no Porto de Minsk no mais bizarro escambo já registrado pelas autoridades aduaneiras do leste europeu. Quando restavam dez segundos para o impacto, e todos os homens se acotovelavam para padecer mais perto do Anão, Josef profere: "Libertem o inhame". O responsável pelo tubérculo aperta o botão vermelho que abre as comportas do depósito, e meio segundo depois, o torpedo inimigo explode contra a parede de inhame, eclodindo em um grande cogumelo de fogo e carboidratos. A chuva de inhame não só afundou a frota de Marceu Marceau como acabou com a fome de toda a Lituânia, fazendo com que Vladimir Lenin desistisse da Revolução Bolchevique para se tornar padeiro.

Após subjulgar a frota de Marcel Marceau, Josef é erguido em êxtase pelos seus comandados, enquanto saboreia um autêntico refresco Mupy e faz o V da vitória para a multidão. Porém, um sujeito não estava satisfeito com a glória do Anão. J. Gallardo ocupava o cargo de maior prestígio em Kiev – Bongo Humano – e não seria superado com tanta facilidade pelo Diminuto. Durante a marcha de Josef, J. Gallardo começa a espalhar o boato que o "V" de Josef quer dizer "ventoinha", ou ainda pior, "vinagrete". A população fica ouriçada e começa a se voltar contra o Anão, fazendo com que J. Gallardo inicie uma gargalhada cósmica. Prestes a ser linchado pela massa, Josef simula o som de uma cuíca com grande exatidão, atraindo onze mil macacos-bonobos, sendo o estopim de um caos jamais visto antes de 1917. J. Gallardo se arrepende de seu gesto cruel, e numa tentativa desesperada de salvar Josef, se lança em um recipiente com cádmio para atrair a atenção de todos, ao mesmo tempo em que sacrifica seu sonho de ser jóquei. A reação química somada ao rugir dos macacos-bonobos causa um fluxo de energia suficiente para sugar Josef, J. Gallardo e o czar Nicolau II para 2007, materializando-se os três bem no meio da cerimônia de abertura das Olimpíadas Escolares de Uberaba.

O discurso do Secretário de Esportes de Uberaba foi subitamente interrompido pela materialização de Josef, J. Gallardo e czar Nicolau II no alto da tabela de basquete, suficiente para arrancar alguns aplausos satisfeitos. Devido a uma confusão na entrega dos convites, o cônsul da Lituânia estava presente à cerimônia, e ao reconhecer o czar, avança sobre o monarca com tremenda virilidade, em repúdio ao regime totalitarista impetrado entre 1894 e 1917. Porém, czar Nicolau II só dava ouvidos ao seu peixe-beta, e começa a correr pelas ruas de Uberaba com seu suntuoso casaco de arminhos. Preocupado com essa pequena alteração no curso da história, Josef persegue e captura Nicolau, cedendo o casaco à recém-inaugurada loja de roupas Arminhomania. "Seja bom", diz Josef ao czar, que se arrepende instantaneamente de todos seus crimes de guerra e entende o verdadeiro sentido da vida, abraçando o Anão com ternura, logo após declarar a independência de Uberaba.

Satisfeito com o resultado da missão, Josef busca repouso em uma estalagem de nome "Abrigo de Tia Regina". Embora incomodado com alguns detalhes, como o fato de Tia Regina ser um sujeito de farda militar e rosto camuflado, que bradava ordens em alemão a outros trinta homens vestindo trajes espaciais que carregavam um recipiente amarelo com a palavra "Plutonium", decide entrar mesmo assim. Após aguardar, sem sucesso, resposta para o toque da sineta na recepção, Josef entranha-se furtivamente em uma sala onde Tia Regina prepara-se para apertar um botão vermelho, sob gritos de incentivo dos colegas e o mapa da Groenlândia na parede como final da rota de um míssil. Aproveitando-se da mesa de quitutes natalinos, Josef atira uma noz moscada em Tia Regina, que cai e morre. Inflamados com o acontecimento, os homens encurralam Josef, que, mesmo cercado, confunde os oponentes com uma ginga de corpo e se lança sobre o recipiente amarelo, que começa a vazar. O fim do Grande Anão era uma questão de segundos, já que os homens se aproximavam com palavras não amistosas, e o líquido derretia o chão perto de seus pés. Numa mistura de genialidade e ousadia, Josef retira do bolso seu estojo de Alquimia Mirim, e mesmo sem ler as instruções, atira pó de ferro e ácido sulfúrico no líquido esverdeado. A reação química ainda não compreendida pela ciência gera uma bolha protetora em volta de Josef, que gira em velocidades cósmicas e atira o Anão para o século VI a.C., no exato momento onde os persas, aparentemente, encontravam uma maneira de transportar um enorme golfinho até Utah.

Ao materializar-se no centro político da Pérsia, no século VI a.C., Josef estava nu e com fome. Levantou-se, mediu a velocidade do vento com seu indicador, e calçou suas meias da sorte. Os locais aproximavam-se com um misto de admiração e assombro, e o eficiente artesão Sa'dabad esculpia graciosas miniaturas do Anão em pedra-pomes, vendendo ao preço de três cabras. O líder espiritual foi prontamente chamado, e ao chegar renunciou ao seu cargo por se sentir cosmicamente ínfimo perante Josef. Tanto poder incomodou o Xá Pahlevi, que suspendeu a reunião com os emissários da Babilônia para ir a encontro do tumulto que se formava. "Apresente-se àquele que se materializou", bradou o porta-voz do Xá Pahlevi. "Sou Josef, o Anão, e desafio seu pavão para uma partida de War". A tensão tomou conta de todos os seres vivos em um raio de 4,2 quilômetros. Uma certa senhora Brewster desmaiou. Após alguns momentos de deliberação entre Xá Pahlevi, o pavão (acompanhado de seu empresário), e um sujeito extremamente parecido com Al Pacino, o desafio foi aceito e teve local e hora marcados, para alegria dos cambistas persas, que já tinham em mãos todas as entradas compradas com uma carteirinha de estudante em nome de Carlitos Tevez.

O duelo de War entre Josef e o pavão real era o evento mais importante do Império Persa desde que Arthos, o Grego, desafiou (e venceu por 2x1) um arbusto em uma partida de bocha. Embora a aparição apocalíptica do Anão tenha lhe rendido alguns seguidores, a casa de apostas de Ghulaman mostrava que o pavão tinha a preferência do povo e da crônica especializada. Conforme o momento da batalha se aproximava, o público se aglomerava no local do evento, sem que faltasse uma criatura sequer. Lá estavam todos, leões e pulgas, o sujeito extremamente parecido com Al Pacino, o eficiente artesão Sa'dabad, Arthos, quarenta mil garotas com carteirinhas de estudante (falsas) de Carlitos Tevez, uma certa senhora Brewster, e um arbusto. Tal como um Cassius Clay, o pavão surge envolto em um roupão, com seu séquito de treinadores, massageadores, advogados e um filósofo, conquistando a multidão com seu carisma inconfundível. Aproveitando-se da situação, Josef aparece despreocupadamente comendo uma mexerica, sem saber que morder o fruto poroso era considerado na Pérsia uma ofensa tão grande quanto lamber os cotovelos na presença de um marceneiro. Tomado pelo ódio, o pavão e as milhares de pessoas atacam o Anão de forma voluptuosa, e, naquele momento, pouco restava a Josef exceto sua honra e sua camiseta da seleção da Nicarágua assinada por S. Paladiño.

Ao ver Josef mordiscando a mexerica, o líder espiritual persa ordenou que o Anão fosse morto como prevê a lei que protege os frutos cítricos: cada habitante da Pérsia aplicaria um sopapo na nuca do réu, exceto crianças e idosos, que poderiam dar dois. Entregue à própria sorte, Josef é capturado, atado e levado na direção do Templo do Sacrifício, ao som da animada marchinha "Alimentem a hiena com o rim do desventurado". A fúria incontida da população persa contrastava com a serenidade de Duílio Kobayashi, obscuro membro da equipe de seguranças do pavão. Enquanto os demais protetores e empresários do pavão somavam-se à multidão enlouquecida, Duílio caminhava tranquilamente no sentido contrário ao fluxo, na direção do Anão imobilizado. Ao aproximar-se de Josef, o segurança se despe em um só movimento de seus trajes de segurança persa, revelando um uniforme militar russo. A multidão pára, e Duílio sussurra ao ouvido de Josef: "Foi uma honra servir com o senhor no Encouraçado Olof Mancuso". Em meio à surpresa geral, o misterioso benfeitor arma uma mini-hélice e fixa o artefato em Josef que é erguido do solo com a ajuda da exótica máquina, sendo guiado em câmera lenta pelo doce vento da liberdade, para desespero do povo e das autoridades persas.

Guiado ao sabor do vento, o Anão planava por terras desconhecidas. Duílio Kobayashi, seu funcionário na saga do Encouraçado Olof, aprendeu tudo que se pode saber sobre inhame após a batalha de 1917, e descobriu as formidáveis propriedades atômicas do alimento, concebendo uma máquina do tempo com a combinação de doze tubérculos diferentes. De posse desse artefato, viajou incansavelmente e fez grandes amigos ao longo da história, como Ayupe (ex-Grêmio), que vivia em um tonel, e Randy Mamola, de quem todas as formigas tinham medo. Enquanto passeava com os colegas em seu local preferido, a Pérsia do século VI a.C., vislumbrou a figura do Anão envolvido no conflito com o pavão e todos os outros habitantes persas. Sem titubear, alertou Ayupe e Randy sobre seu plano suicida, comeu o último pedaço de seu amado inhame e seguiu para livrar Josef. Concluída a tarefa, Duílio é condenado à morte por cócegas, encerrando feliz sua participação na história. O Anão é resgatado dos ares pelo estudante de agronomia Adolfo Ljüngbergsson, aquele que não tem a menor idéia de como foi parar na Pérsia antiga. Assim que toca o solo, Josef saúda Adolfo, Ayupe e Randy Mamola, imita um escocês por quinze segundos, e assegura que não descansará enquanto não vingar o sacrifício de seu mártir.

Ao colecionar peripécias por toda a história, Josef não só reescreveu o destino da humanidade como também aprendeu a cuidar de tatus-bola com destreza e maestria. Enquanto instruía seus pequenos artrópodes, o Anão preenchia-se de júbilo e tinha a certeza que essa era sua real vocação. Embora a recordação do triste sacrifício de Duílio Kobayashi ainda estivesse presente, Josef dedicava-se em tempo integral às suas criaturas de estimação, que já ultrapassavam a marca de dois tatus. Sua aptidão era tamanha que começou a incomodar alguns de seus próprios amigos, como o lateral-direito Ayupe (ex-Grêmio) e o verdadeiro senador republicano Greg Bingaman, de Idaho. Após breve deliberação, a Associação dos Laterais-Direitos, formada por Ayupe, Perivaldo, Nuno Valente, Cafezinho e Gil Baiano, aceitou unir-se ao Partido Republicano para derrubar o Anão de seu posto de Mestre dos tatus-bola, cargo que despertava inveja além de polpudos patrocínios de empresas de material esportivo. Naquela noite, Josef repousava satisfeito sem imaginar que os traidores apenas acertavam os detalhes finais do plano malévolo, que envolvia desde o cônsul da Lituânia até Robert de Niro, passando pelo pavão e por um filósofo, e com o aval de 120 advogados chamados Peixoto.

Envolto em um manto de linho, o Anão tentava descobrir uma forma de sair da Pérsia do século VI a.C., se é que ainda estava nela, já que tinha perdido seu relógio de pulso ao trocar a pulseira azul pela verde-água. Entretido com sua formosa coleção de (dois) tatus-bola, Josef nota uma sombra misteriosa, acompanhada de um movimento sorrateiro e sinais de laser apontando para sua face e seus principais órgãos vitais. Sem oportunidade de reação, o Anão apenas observa a aparição de Ayupe, junto com o senador Greg Bingaman e 35 soldados americanos fortemente armados, que apenas esperavam o comando para perfurar o pequeno corpo do indefeso."Você tem dois tatus-bola, e por isso há de morrer", afirmava Ayupe, que aparentava ser o líder da tropa. Cansado e desapontado por tamanha traição, o Anão se ajoelha e apenas aguarda o estampido do projétil que acabaria com sua existência. Como um autêntico fã de Gladiador, Ayupe posiciona seu polegar de lado, indicando que ao descer o polegar, os atiradores estariam livres para o tiro derradeiro. O polegar desce, e imediatamente múltiplos estampidos são ouvidos, acordando todas as codornas e pequenos ovíparos da antiga Pérsia, e o que se segue é o silêncio. Apenas o silêncio.

O silêncio perdura por apenas doze segundos, e é quebrado pela voz que dizia: "Pode abrir os olhos, Josef. Já isolamos o perímetro." Ainda em dúvida se essa era a primeira frase que ele ouviu no pós-vida, o Anão tira as mãos da nuca, se volta ao seu interlocutor, e sorri loucamente ao ver que se tratava do sujeito extremamente parecido com Al Pacino, que rapidamente explicou que se tratava de um agente do Império Celta infiltrado. Como os celtas eram famosos pela insônia e por odes como 'Odiamos os persas mais do que tudo nessa vida', ele e seus amigos decidiram ajudar o Anão a se livrar dos capangas liderados por Ayupe. Com Josef e seus (dois) tatus-bola em segurança, os agentes secretos celtas se despediram do Anão deixando uma grande certeza: Para conseguir retornar à Zagreb do ano de 2004 d.C., ele não poderia confiar em ninguém.
 
 

continua...
 

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Aaní
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